sábado, 18 de agosto de 2012

Professor Alex – EU E LISSA OU NÃO MAIS QUE UM PARÁGRAFO

Não cuidem se tratar de um romance do calibre da produção de um Shakespeare, nem de uma grande produção cinematográfica. Nem mesmo um Bestseller ou um desses contos consagrados de suspense policial. A história é tão simples, demasiadamente simples, tão humilde que sendo o meu nome Alexandre, nada poderia ter de “O Grande”, talvez mesmo o inverso, “O Pequeno”, o incomensurável pequeno na sua estúpida pequinês. Pois bem, naquela época eu ainda estava casado, os meus meninos grandes eram ainda crianças e meu casamento era uma relação que parecia estável, sólida, causava até inveja aos outros casais. Era época em que fazia a penúltima pós-graduação. Foi no segundo semestre que o que eu julgava ser estabilidade matrimonial se tornou no meu desalento, num profundo desencanto. Na sala onde a maioria das mulheres eram feias aos meus olhos, pelo menos se comparadas a minha esposa, meu olhar começou a se deter em uma que exatamente tinha uma beleza peculiar. Chamava-me atenção a pouca ou nenhuma vaidade feminina que era sua marca e mesmo assim, destacava-se entre as outras da sala, da universidade (Não me aterei a nomes ou detalhes que possam denunciar os lugares ou atores), da própria cidade, naquele momento, quente e com poucos atrativos para quem aos poucos se apaixonava. Estar em país onde a nossa língua não é o código exato, torna até o mais fluente no idioma uma espécie de tolo em qualquer trejeito. Não existe disfarce possível, plausível ou viável. Minha discrição era tamanha que até eu mesmo julgava não ser verdade o fato dos meus olhos, vez por outra se deterem nela e nos dela. Ela guardava um ar circunspecto, uma aura de ausência às coisas do mundo, mas na realidade, dentro do seu silêncio, era a que mais entendia e conseguia ler os outros a sua volta. No entanto, apenas eu percebia que ela não era a ingenuidade que gradativamente enganava aos outros. Em seu silêncio, ela era capaz de ler, muitas e muitas vezes, até melhor que eu, cada alma vivente, naquele purgatório aqui na terra, entre aquela fogueira das vaidades que assola e mina a academia em qualquer lugar do planeta. Falava tão pouco, mas tinha uma desenvoltura no trato com a língua, como se fosse uma nativa, o que muitas vezes poderia me causar uma certa inveja se já não me visse preso em suas teias de mulher, na sua rede de olhares, nos seus gestos quase indeléveis. Mesmo distante da minha família, nem precisava dizer que liam em minha fronte que se tratava de um homem casado. Ao meu inverso, ela parecia ser livre, solteira, com um universo pela frente a se trilhar. Erro fatal o meu. Foi um banho de água fria, descobrir-me apaixonado por uma mulher casada. Sim, ela era casada, com papel passado, mas não aos olhos de Deus. Sem o saber eu já pecava, desejava ardentemente a mulher do próximo, apesar de pelo menos pensar que o mundo a volta não percebia, nem se quer notava de longe a minha atenção ou alguma atitude em relação à Lissa. Sim, esse era o nome dela, Lissa Cais. Nome pouco comum, sobrenome menos ainda. Quantas vezes não me desconcentrei na aula, nalguma discussão que surgia, enquanto ela parecia estar em sintonia aos conceitos mais absurdos que os teóricos criam pra complicar a nossa vida. Voltando o ouvido e olhar em direção a professora, logo conseguia pegar o fio da meada, como se alguma Ariadne abstrata estivesse ajudando o seu Teseu ou Minerva não abandonasse Ulisses. Nalgum momento ela haveria de olhar para mim, até mesmo porque, mesmo sem dominar o idioma, arriscava-me todo tempo a falar, tecer comentários que agradavam, mais a professora que aos meus pares. A realidade era que meus pares me achavam o chato porque em qualquer assunto, em qualquer teoria, em qualquer teórico, eu me metia, serpenteava entre os mais recônditos abismos teóricos. Meu maior problema com ela era não sair da teoria ou das regras do catecismo. Tristeza foi saber depois que a medida em que eu me apaixonava, por mim, Lissa guardava uma sentimento quase inverso. Para ela eu era intragável, grosso, antipático e sinônimos que prefiro esquecer ou que o tempo fez por mim. Como eu podia desejá-la tanto e na minha idade ser consumido por um amor platônico? Algo que guardava apenas para mim. Era um sentimento que ate hoje, passado tanto tempo, considero bonito, mas que feria a nobreza do meu caráter, da minha ética e casamento. Acontece que tinha a desculpa (esfarrapada) de estar longe da minha família e a solidão corroia até o meu estômago com uma gastrite que me fez já naquela época esquecer café e qualquer tipo de refrigerante. Mas, minha dor maior não era física, ela atingia como seta a minha alma. Minha dor foi descobrir que a ausência de aliança no anular esquerdo não era sinal de liberdade. Lissa era casada e, mesmo mais nova que eu, um casamento mais longo que o meu. Certezas vão drasticamente embora e o tempo que consome os pedaços de horas ainda é pior. No entanto a tal certeza era que se erguia traiçoeira e o tempo ao invés de fazer o sentimento se esvair de mim, começava a me atrapalhar não apenas nos estudos, mas nalguns detalhes tolos como colocar o botão na casa errada da camisa, usar a camiseta ao avesso, esquecer de levantar o zíper após deixar o banheiro. Mas, nesses detalhes tolos, ela enfim olhou para mim e então sorriu. Surpresa minha foi receber um bilhete dela em inglês, dizendo que minha cueca era branca. Retornei o tal bilhete, perguntando como ela sabia do fato, se era uma bruxa ou alguma vidente e ainda questionei porque não fez o comentário em alemão. A resposta, ainda em inglês, dizia que eu fechasse discretamente o zíper da calça e que meu alemão era tosco. Quando levantei meu olhar para Lissa, ela piscou o olho direito mordiscando a tampa da caneta, de uma maneira claramente cínica. Era uma mulher e agia como tal. Depois desse bilhete, vários outros surgiram, sempre escritos em um único parágrafo, mesmos alguns sendo extensos. Dos bilhetes passaram-se, com o tempo, a uma intimidade que me fazia o homem mais adolescente, até que um dia já parecíamos casados. Aconteceu, porém que por problemas que tinha que resolver em seu país, desapareceu de uma hora para outra, trancou o curso exatamente no momento em que eu o concluía. Não houve despedida ou um parágrafo escrito. Soube pelo coordenador do programa que ela retornaria, provavelmente no semestre seguinte. Foi a última notícia que obtive dela. Ao voltar para minha casa, a qualidade de ser compreensiva da minha esposa que eu tanto admirei um dia, era o que eu mais detestava. Detestava meu trabalho. Detestava o passar dos dias. Detestava ver outros casais felizes. Detestava detestar. No entanto o que eu mais detestava era cada um daqueles bilhetes de um parágrafo que ia queimando um por um, apenas para sentir que poderia me livrar das provas do meu crime e numa fração de segundo não duvidar que ainda a desejava, ainda a amava e, muito mais que isso, o nome dela permaneceu até os dias de hoje, quando tantas coisas importantes sucederam no mundo, quando de pai me tornei avô. Mesmo na tenra velhice, um parágrafo na minha vida se tornou um pesar sem nome, sem forma, etéreo, mas ao mesmo tempo tão cheio de significado, porém nitidamente disforme.

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