quarta-feira, 23 de julho de 2014

Exércitos: a gênese da guerra


Na Antiguidade, surgiram os exércitos, com a função de dominar povos e angariar terra

Eliza Muto | 01/01/2005 00h00

A guerra, tal como conhecemos hoje, tem data de aniversário: 3º milênio antes de Cristo, nos remotos tempos da Antiguidade. Foi nessa época que surgiram os primeiros estados. E, em conseqüência da embrionária organização social, também entrou em cena a infantaria. Os exércitos passaram, então, a ser fundamentais para a dominação de povos e a conquista de terras, mudando para sempre os rumos da humanidade. A partir daí, fronteiras começaram a ser estabelecidas – e germinava, timidamente ainda, diga-se, a semente do conceito de nação. Na pré-história tudo era diferente. Os combates entre povos não passavam de brigas de vizinhos. Com golpes de lança e disparos de flechas, tribos inimigas se enfrentavam em um corpo-a-corpo. Para os vitoriosos ainda não estava em jogo a ocupação de novos territórios e, sim, o pão de cada dia e as crenças espirituais. “No caso dos indígenas, por exemplo, havia o aspecto religioso, em que os inimigos capturados serviam de banquete para os valentes guerreiros”, exemplifica o historiador e arqueólogo Pedro Paulo Funari, da Unicamp.

Os primeiros exércitos são conseqüência direta do desenvolvimento da agricultura no Egito e na Mesopotâmia – e também do surgimento dos primeiros centros urbanos, por volta de 3200 a.C. Com o acúmulo de excedente agrícola, sumérios, egípcios e hititas passaram a ter a capacidade de reunir forças militares. Armados com lanças e espadas de bronze, os soldados se enfrentavam a pé ou usavam cavalos e carruagens. Havia duas motivações para os embates: a busca por recursos naturais ou questões político-religiosas. “Todas as terras estrangeiras estão sob estes dois pés do Deus bom (Ramsés II), amado por todos os deuses e adorado por todo o povo, vida e saúde!”, revelam os escritos sobre a trajetória do reinado do faraó Ramsés II. Segundo os hieróglifos das paredes do templo de Luxor, no Egito, os deuses concedem todas as terras ao governante egípcio.

O ferro e as batalhas

O poderio e a violência das civilizações do Oriente, no entanto, foram derrotados por uma nova “arma”: o ferro. “O metal, introduzido no começo do primeiro milênio antes de Cristo, era mais barato e mais utilizável como arma de ataque e de defesa”, explica Funari. Quem primeiro se beneficiou da descoberta foram os gregos. Por volta do século 6 a.C., surgiram na Grécia as comunidades de pequenos proprietários rurais que, como nas civilizações orientais, garantiram os excedentes de cereais. Para proteger ou ocupar terras férteis, os camponeses pegaram em armas. Nesse contexto, apareceram os combatentes hoplitas, que levaram para o campo de batalha um lema oriundo do cultivo da terra: a união faz a força. Se, sozinho, o hoplita era um alvo indefeso, o mesmo não acontecia quando os combatentes estavam organizados nas falanges. O agrupamento de homens munidos de escudos e lanças transformava-se em um instrumento poderoso. Avançando em formação, as colunas de soldados chegavam a 3 quilômetros de comprimento, com exércitos formados por até 30 mil guerreiros.

“Era uma visão impressionante e assustadora”, escreveu o biógrafo Plutarco, nascido no século 1 de nossa era, sobre as falanges espartanas. “À medida que marchavam, não deixavam nenhuma brecha na linha de batalha e, sem confusão no coração, avançavam em direção ao perigo”, completou. A força dos hoplitas inspirou, mais tarde, a formação das legiões romanas – unidades militares compostas por 5 mil combatentes, todos bem treinados e equipados. A diferença é que, agora, a infantaria era formada por soldados profissionais que prestavam obediência ao general, e não ao Estado. Assim generais tornaram-se imperadores, como Otávio. Em 27 a.C. ele recebeu o título de Augusto, tornando-se o primeiro imperador oficial de Roma.

O legado

Em meio aos embates do mundo antigo, o homem aprendeu uma lição: a guerra propicia o poder e a dominação. O resultado é que o mundo em que vivemos hoje, em grande parte, existe em função da guerra, seja por meio de conquistas, conflitos civis ou lutas por independência. “As guerras da Antiguidade serviram de modelo para os tempos modernos. Alexandre da Macedônia e Júlio César inspiraram, por exemplo, Napoleão Bonaparte em sua forma de guerrear”, lembra Funari. Os conflitos evidenciaram ainda o poder do exército como força independente, capaz de dominar o cenário político. “É o que pudemos observar no Brasil com o golpe militar de 64”, diz o professor. Mas um exemplo de coragem daqueles longínquos tempos, no entanto, não foi herdado pelos governantes atuais. Em épocas remotas, o general participava das batalhas, combatendo e morrendo na frente de seus homens.

Texto retirado de: 

Link Compartilhado no Facebook pelo professor de História: Kleber.

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