quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Aventuras na História: Livros em perigo

Lutas pelo poder, intolerâncias e guerras religiosas destruíram para sempre parte do conhecimento humano

 
Fernando Eichenberg | 01/06/2004 00h00

Documentos otomanos, tábuas assírias e textos sagrados foram pilhados no ano passado, em Bagdá, no Iraque, no rastro do conflito que tomou o país após a invasão das tropas americanas e inglesas que destituíram e, mais tarde, prenderam Saddam Hussein. A maior parte do estrago foi feita por saqueadores e ladrões baratos que estão colocando no mercado internacional de antiguidades parte desse tesouro. A destruição de livros, no entanto, não é privilégio dos tempos modernos, mas um triste hábito milenar. A lei cega dos conquistadores determina que os subjugados devem mudar de história e de crença: um povo instruído não pode ser governado, diziam tanto as hordas mongóis que invadiram a China no século 12, quanto os nazistas que tomaram a Tchecoslováquia, às vésperas da  
Segunda Guerra Mundial.

Uma das maiores civilizações da Antiguidade, a egípcia, sofreu com isso mais de uma vez. “Não fosse a inscrição ‘escriba da casa dos livros’ na tumba de um funcionário do faraó Neferikara, que reinou entre 2462 e 2426, poderia se duvidar da existência das bibliotecas egípcias”, afirma Lucien Polastron, historiador francês, autor de Livres en Feu – Histoire de la Destruction Sans Fin des Bibliothèques (Livros em Fogo – História da Destruição sem Fim das Bibliotecas, inédito no Brasil). Segundo ele, as guerras internas no tempo dos faraós já seguia a máxima “os livros dos meus inimigos são meus inimigos”. Num exemplo disso, o faraó Amenhotep IV, que viveu entre 1353 e 1336, mandou destruir todos os textos sagrados, quando adotou um novo deus e um novo nome: Akhenaton. Ironicamente, depois de sua morte, o mesmo foi feito com tudo aquilo que se escreveu sobre ele.

Séculos depois, o Egito novamente se tornaria centro da cultura mundial. Agora a helênica, espalhada por boa parte do mundo antigo por Alexandre, o Grande. Em sua homenagem, foi reunida em Alexandria uma das maiores coleções de textos já vistas. O incêndio da biblioteca de Alexandria, durante a invasão romana de 48 a.C., permanece até hoje como um exemplo quase mítico da destruição de livros. E mesmo que as estimativas divirjam quanto ao total daquilo que se perdeu (no século 1 a.C. havia cerca de 700 mil volumes no local), o certo é que o prédio abrigou os principais textos da Antiguidade. “Em Alexandria, muitas vezes pela primeira vez, tradições orais foram compiladas em livros”, diz Polestron. No grande incêndio, perdeu-se, por exemplo, as primeiras versões de Ilíada e Odisséia, de Homero, feitas por Zenódoto de Bizâncio (o primeiro dos bibliotecários alexandrinos).

Em 27 a.C., em Roma, o filósofo Marco Terêncio Varrão (116-27 a.C.), chamado de “o mais culto entre os homens da República”, deixou 74 títulos, em mais de 600 tomos, sobre gramática, agricultura e arqueologia. Por razões obscuras, Marco Antônio, fiel escudeiro do imperador Júlio César, ordenou a queima da obra de Varrão, da qual sobraram poucos indícios.
Na China antiga, os dirigentes tinham mentalidade distinta e, por vezes, destruíam as próprias coleções para impedir que fossem tomadas pelo inimigo. Em 544, o imperador Yuan Di queimou os 140 mil livros de sua biblioteca. Diante do fogaréu, ele ameaçou se jogar nas chamas e exclamou: “A cultura desaparece essa noite”.

Ainda mais devastadora, foi a destruição das obras astecas no México. Em 1529, Juan Zumárraga, um dos maiores inquisidores espanhóis no Novo Mundo, mandou queimar tudo o que o conquistador Hernan Cortez não havia destruído. Ao assumir o posto de bispo do México, ele juntou o que havia nos depósitos onde estavam guardados os acervos tomados dos índios e as obras que permaneciam na biblioteca de Anahuac e queimou tudo na praça do mercado de Tlaltelolco. Relatos da época dão conta que o fogo levou três dias para transformar a montanha de papel (e 7 mil anos de civilização) em cinzas. “A perda é ainda mais grave se pensarmos que, ao contrário dos livros da Antiguidade, em que referências cruzadas e outras cópias nos permitiram conhecer seu conteúdo, nesse caso nunca saberemos o que aqueles textos tinham a ensinar”, diz Polastron.

Provando que nenhum conhecimento está a salvo da fúria de seus opositores, os católicos que queimaram os textos ameríndios, também perderam muitos de seus escritos sagrados. O rei inglês Henrique VIII, fundador da igreja anglicana, mandou destruir cerca de 300 mil obras católicas, entre 1536 e 1550. A Revolução Francesa, em 1789, também não poupou os livros, seja na tomada da biblioteca da Bastilha ou na posterior queima de livros, em 1792, diante da estátua de Luís XV.
No século 20, a Segunda Guerra (1940-1945) foi o carrasco maior dos livros. Estima-se em 20 milhões de livros queimados nos bombardeios alemães na Grã-Bretanha, seja pelo fogo ou pela água jorrada pelos bombeiros. Em Florença, em 1944, a biblioteca da Academia de Ciências e Letras foi completamente destruída. Na Ucrânia, Hitler impôs a política de “terra arrasada”: aquilo que não pôde ser transportado, foi destruído. O alemães guardaram os quadros do pintor holandês Rembrandt, mas destruíram todas as 19,2 mil bibliotecas do país.

Mais recentemente, o incêndio da biblioteca de Sarajevo pelos sérvios, em 1992, e a queima de livros no Afeganistão pelos talibãs, em 1999, reacenderam o horror da intolerância com a cultura alheia. Para Polestron, essas tragédias têm um agravante: “O livro é uma cópia do homem, queimar o primeiro equivale a matar o segundo”. E pior: é uma tentativa de apagá-lo da história.

Perdidos para sempre
(Veja o restante em: http://abr.ai/1nMsr3O)

Texto e foto:  Aventuras na História

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