terça-feira, 24 de março de 2015

País retrocede ao discutir causa gay

Por Jaiane Valentim em 24/03/2015 na edição 843
A nova novela da Rede Globo, Babilônia, estreou há uma semana e já gerou um rebuliço desnecessário por parte de internautas, deputados e até mesmo de duas de suas concorrentes diretas.
A trama, escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, aborda, entre outros temas, a relação homoafetiva na terceira idade. As personagens Estela (Nathália Timberg) e Teresa (Fernanda Montenegro) têm uma união estável há 35 anos e, após todo esse tempo, puderam finalmente se casar. Casais homossexuais já estão presentes nas novelas da emissora, como nas antecessoras Império (José Mayer e Kléber Toledo) e Amor à Vida (Mateus Solano e Thiago Fragoso). Babilônia “chocou” o público por não esperar a trama inteira para mostrar o beijo de um casal homossexual. Isso aconteceu logo na estreia, na segunda-feira (16/3); outro beijo entre Estela e Teresa foi ao ar no terceiro capítulo.

Não demorou muito para que o país se mostrasse mais preconceituoso do que se pensa. Diversas manifestações contrárias ao casal tomaram as redes sociais, escancarando uma parcela da população que parece não acompanhar o tempo que vive.

“Preocupada”, a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional divulgou no dia seguinte da estreia, 17, uma nota de repúdio à cena. Segundo o texto, “a emissora tem clara intenção de afrontar os cristãos em suas convicções e princípios, querendo trazer, de forma impositiva, para quase toda a sociedade brasileira o modismo denominado por eles de ‘outra forma de amar’, contrariando nossos costumes, usos e tradições. Essa é a forma encontrada para disseminar a ideologia de gênero, atacando diretamente a família natural e aqueles que denominam de ‘conservadores’, pelo simples fato de não coadunarem com estas práticas”.

Posturas como essa, vinda de deputados, pessoas que lutam (pelo menos deveriam) por melhorias para aqueles que os colocaram no poder, fazem com que o país “retroceda” – na verdade, em relação a esse assunto, algumas pessoas parecem não fazer nenhum esforço para compreender o direito e princípio de igualdade, que consta na Constituição Federal (1988). Ainda é curioso partir da bancada evangélica, que, obviamente segue princípios bíblicos; afinal, o conceito de igualdade também consta no livro sagrado. Tiago (2:9) diz: “Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redarguidos pela lei como transgressores.”
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Em um país onde gays sofrem agressões físicas gratuitas nas ruas, a Globo acerta ao discutir o tema. Tratando o casamento como ato político, como diz a personagem de Fernanda Montenegro, e sabendo do poder de alcance que tem, tenta – há algum tempo – tornar um beijo homossexual em algo natural. Assim como é importante enxergarmos casais homossexuais como um casal como qualquer outro, não só na teledramaturgia como na vida real.

É preocupante que conteúdos violentos, por exemplo, sejam mais “bem vistos” do que a homossexualidade. A própria Rede Globo exibiu uma série sobre um serial killer e nada causou tanto desconforto. Pelo contrário. Houve uma discussão sadia sobre assassinos com esse perfil. Por que não podemos discutir com maturidade um assunto tão presente na nossa sociedade há tanto tempo, como é a relação e o casamento gay? Seus filhos não podem ver uma cena de cumplicidade entre duas pessoas do mesmo sexo, mas podem ver assassinatos, roubos e uso de drogas na televisão?

É difícil acreditar em um país onde questões como essa são postas como de outro mundo. O progresso, descrito em nossa bandeira, parece não fazer sentido. Em casos como esse vemos que somos caranguejos. A Globo insiste em bater na tecla, mas, infelizmente, até o momento tudo entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

Texto original: Observatório da Imprensa

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