terça-feira, 11 de outubro de 2016

ENTRE CABRAS UMA FLAUTA DOCE NO SERTÃO DO MENINO

Por Camilo Lemos

Na quarta-feira à noite do dia 07 de setembro, prof. Múcio me convoca: “Camilo, vamos a Lajes!”, com o tom de voz de satisfação característico de quando ele fala que vai a Lajes. Respondi de bate pronto: “Tudo bem Professor”. Além de poder aprender com mais uma viajem, ter o privilégio de ir com um filho de Lajes que tem forte amor pelo berço, eu também iria rever “DUDU”.

Dudu tem 09 anos de idade e é filho de Tonhinho, primo de Prof. Múcio. Na primeira vez que estive nas Caraúbas, localidade onde foi construído o primeiro açude de LAJES-RN, conheci Dudu que me apresentou, com muito entusiasmo, as cabras e dois cabritos, os quais ele estava dando um reforço alimentar com a mamadeira. Tocou-me a maneira como ele lidava com os animais! Um exemplo de grandeza humana
.
A época era muito difícil. Muito dura. Já eram quatro anos que a seca castigava a região e estávamos entrando no quinto ano, era dezembro de 2015. Os animais sofriam. Tudo seco na região, os galhos dos “pés de pião” contorcidos davam a impressão de que estava tudo invertido, ali as raízes nasciam para cima e as folhas e tudo que era verde nasciam para baixo do chão fugindo do sol.

Querendo retribuir a gentileza à Dudu, perguntei se ele gostava de música, então fomos para as primeiras lições de leitura rítmica, trata-se do reconhecimento dos valores na música, duração dos sons e das pausas, noções básicas. Dudu é muito inteligente, gosta de matemática, portanto a tarefa não seria difícil para ele e mesmo assim ele me surpreendeu. Prometi a Dudu uma flauta doce para iniciar os estudos do instrumento e uma camisa do Vasco. Pois bem, era hora de rever Dudu e levar os presentes.

Viagem boa, prof. Múcio guarda todo o mapa e a paisagem antiga na cabeça, então vem remontando o caminho, estradas, trilhas, plantações, propriedades numa verdadeira aula de campo. Chegamos antes do horário previsto e fomos andar pela região. Depois da reunião onde foram definidos alguns detalhes da participação de prof. Múcio na FLILAJES, seguimos para as Caraúbas. Tonhinho nos recebeu e fui logo perguntando: “Cadê Dudu?”. Respondeu Tonhinho: “Dudu está bem, está na casa da Mãe dele, está se arrumando para ver uma apresentação lá no centro”. Era a FLILAJES, o envolvimento do povo de Lajes com o evento é de se admirar. Eu disse: “tudo bem, vou me encontrar com ele lá.”

Depois do almoço, uma rede para descansar e um vento morno para embalar. Quando Tonhinho estava saindo para o evento, falei com Dudu, disse da flauta e que gostaria de dar uma aula para ele se quisesse. Não vou tentar descrever a cara que Dudu fez, pois não conseguiria. O mais próximo que posso chegar é de uma grande mistura de surpresa, alegria e ansiedade. Dudu seguiu com sua família, pai, mãe e irmã para o centro de lajes, fomos logo depois.

Ruas enfeitadas, alunos e professores terminando os últimos detalhes. Cangaceiros e cangaceiras, sacis pousavam para fotografias junto a mula sem cabeça, o maior tinha menos que um metro e meio de altura. O centro das atenções eram as crianças, aquele momento era delas, das crianças. Netos, avós, pais, vizinhos, amigos e conterrâneos estavam ali, todos. É muito gratificante ver a cidade daquele jeito, todos envolvidos com a sua cultura, a esperança chegava com um vento frio.

Fomos procurar um lugar afastado do local do evento, para apresentar a flauta doce a Dudu. Encontramos um banco de uma praça, que era também praça de alimentação perto do ginásio no centro de Lajes. Começamos, Dudu foi indo, o cabra é daqueles seres humanos que querem aprender e aprendem fácil. Ele é sereno e puro, simples e forte, menino bom do sertão.

Começou a escurecer e fomos para uma mesa de uma lanchonete onde havia luz. Continuamos, Dudu começava a ficar intimo das semínimas e colcheias e suas respectivas pausas, chegamos ás notas Sol, Lá e Si, na flauta e na pauta. A tarde havia se despedido e a noite veio. O vento continuou frio só que agora mais forte. Chegou a hora de nos despedir , os familiares já nos esperavam.

Sugeri então:

-Dudu, era bom nos encontrarmos amanhã para eu ver como ficou a lição, tirar suas dúvidas, praticar mais um pouco…

Dudu com a mesma cara que não sei descrever perguntou:

-E vocês vão de que horas amanhã?

Respondi:

– Vamos voltar amanhã pela manhã, lá pelas 10 horas, apareça na casa de seu pai um pouco mais sedo que podemos adiantar tudo bem?

-Tudo bem. Tudo bem…

E com a mesma rapidez que respondeu, perguntou:

-Às 05:00h tá bom?

Olhei para Dudu e o tranqüilizei:

– Hômi, não precisa ser tão cedo… E ri.

A programação do FLILAJES foi noite adentro poesia, música, leitura dramática, troca de livros, mesa redonda e dança. Lajes estava dando um grande exemplo de como a cultura pode aproximar as pessoas, como disse antes, várias gerações estavam ali prestigiado sua arte e sua história.

A noite passou, a madrugada chegou e o vento gelado deixou a ponta dos meus dedos dormentes, “nessas alturas” já havia desistido de dormir no alpendre da casa de Tonhinho. Na volta contei ao prof. Múcio sobre o horário que Dudu propôs para a aula – Cinco horas ta bom? – Rimos muito e fomos dormir.

Acordei com o som dos animais logo cedo por volta das 4h e 30min, o som foi aumentando, eram os animais chegando perto da casa, pensei, são os bichos vindo pedir comida de manhã. Fiquei na rede, estava muito frio ainda.

Ouvi Tonhinho se levantar e abrir a porta: “O que é que você esta fazendo uma hora dessa aqui Dudu? Você tem aula hoje na escola rapaz! E eles estão dormindo ainda!” PENSEI: “EITA PIÚLA!” Dudu tão novo carrega consigo uma das coisas mais preciosas do sertanejo, a palavra. Dudu falou: “Vai ter aula hoje não. É feriado”. Tonhinho incrédulo resolve tirar a prova: “Vai ter aula hoje não? Vou perguntar essa história a sua mãe! Vamos lá.” PENSEI NOVAMENTE: “EITA PIÚLA”. Só que dessa vez mais alto.

Os chocalhos foram se afastando, me levantei, lavei o rosto e prof. Múcio dormia na rede na sala. Voltei pra minha rede e fiquei pensando no que iria dizer a Dudu para que ele não faltasse a escola por minha causa, pois voltaria e continuaríamos as aulas. Olhei as horas: 5h.

O som dos animais foi chegando perto da casa, chegaram. A porta abriu e eles entraram. Quando Dudu me viu acordado olhou para o pai com os olhos arregalados como quem dissesse – Ó ele está acordado! – Abriu um sorriso puro de felicidade. Todos os problemas de Dudu naquele momento tinham se acabado. Primeiro ele não teria aula na escola, de fato era feriado e segundo, eu estava acordado. Ganhei o meu dia naquele momento, estava fazendo parte da felicidade de alguém e ele merece.

Dudu então disparou com toda a energia: “Você lembra daqueles cabritos? Eles estão grandes e nasceram mais, são muitos, já viu? Venha ver! Vem!” Eu disse: “espere um pouco Dudu, deixe eu vestir uma camisa”. Antes de eu terminar a frase, ele já estava lá fora chamando os cabritos, tive que ir. Lá fora, um frio de cortar e de acordar qualquer um. Interrompi as apresentações no quinto cabrito: “Dudu, só um minuto, meu amigo! Vou vestir uma camisa, estou morrendo de frio”. Para minha sorte, Dudu concordou. Agradeci, corri para a casa e Tonhinho já estava com um café pra mim.

Prof. Múcio já estava acordado, todos conversamos um pouco, menos Dudu que ficava para lá e para cá, só observando. Quando dei a última mordida no pão e o último gole no leite, recebi “a ordem”: “venha aqui, venha ver a cachorrinha, temos uma cachorrinha agora aqui”. Agora sim, o dia havia começado, os primeiros raios de sol apontaram no horizonte, o ar matinal do sertão e, uma paisagem que faz o olhar se perder na imensidão. Contemplei a Serra do Feiticeiro e tudo que estava em minha volta. Amanhecer
Primeiros raios do sol

Lá estava Dudu me apresentando a cadelinha, quando a vi, perguntei: “Dudu ela tem algum problema?”. Ela estava toda “mole”, com “pés de mola”, depois se esparramou no chão. Pensei que ela tivesse algum problema nas patas. Tonhinho apareceu e disse: “Não, ela tem nada não, é boazinha, danada que só!” E assobiou para ela que saiu correndo em disparada dando voltas a toda velocidade, mostrando a agilidade dos cães sertanejos. Depois complementou: “Ela fica assim quando está perto dele”. Eu ri. Já estava acostumado com esse tipo de reação vindo dos cães, mas não esperava o que estava por vir.

Saímos em busca do tal cabrito que ele mencionou que já estava grande, fui percebendo que todos os bichos vinham cumprimentar Dudu, passou a primeira turma de cabras e cabritos, todos se dirigiram a ele, segunda turma, a mesma coisa, terceira também. Chamou-me a atenção tamanha naturalidade da relação de Dudu com o ambiente em que vive.

Do outro lado do terreno foi a vez dos sagüins, fomos chegando perto de umas algarobas altas, o primeiro apareceu, Dudu foi me explicando que eles são uma família grande e que moram ali: “tem até uma com um filhotinho nas costas, ela aparece já”. Chegamo-nos mais perto, Dudu começou a se comunicar com eles e os sagüins foram aparecendo e se aproximando. Quem conhece um sagüim sabe que eles são muito ariscos, desconfiados, mas eu estava vendo outra coisa ali naquele momento, eu via uma família de sagüins vindo cumprimentá-lo, dar bom dia a Dudu, inclusive a mamãe sagüim e seu filhote nas costas. Dudu chamou e ela veio, nesse momento senti que o elo de confiança, de amizade entre eles, era muito grande, mas não comigo. É que a “guarda pessoal” da mamãe sagüim estava muito bem posicionada a menos de dois metros da minha cabeça, percebi quando olhei para trás e achei melhor me afastar, pois a presença da fêmea com o filhotinho alterou o comportamento deles que antes estavam apenas curiosos, agora em alerta. Mantive a mesma sintonia de antes, “sou amigo de Dudu, eles não vão fazer nada comigo”. Estava certo e veio outro pensamento: “Será que eles estavam protegendo também Dudu?”
Cada macaco no seu galho?
Na volta para casa, achamos o tal cabrito que fomos procurar, estava nessa última turma. Junto também estavam três cabritinhos que ao avistarem Dudu, vieram correndo balançando o rabo e ficaram brincando com ele e comigo. Dudu contava a vida deles: “Este aqui é ceguinho, um carcará pegou ele quando era bem novinho e deu uma bicada, ele ficou assim”. Os outros dois estavam brincando comigo, eu não conheço a língua das cabras, mas uma cabra grande com seu par de chifre de 20 cm estava deixando bem claro o que queria dizer da forma que me olhava e se movimentava: “quem é esse humano com os meus filhotes?”

Ora, se eu notei, imagine Dudu. Ele veio para perto e tentou me tranqüilizar: “Ela é assim mesmo, é a mais braba que tem aqui, esta assim por que você esta perto dos filhotes dela”, disse-me com a sinceridade, inocência e a pureza das crianças. Mas ouvir isso às seis da manhã foi uma boa dose de adrenalina. No mesmo instante ele se aproximou dela, alisou e balançou sua cabeça pelo chifre, disse qualquer coisa e ela deu as costas e saiu tranquila.

Quando minhas pernas reagiram, achei melhor lembrá-lo da aula e disse: “E aí Dudu, e nossa aula? Vamos lá? Vai ou não vai?”. O local escolhido foi embaixo de uma velha algaroba, onde tem um banco grande e uma comprida mesa de refeição. Começamos a revisão e a nova aula, no final daquela manhã Dudu chegou à nota “dó” e “ré aguda”, agora ele tocava cinco notas na flauta: ré, dó, si, lá e sol.
Visita ilustre durante a aula

Deixei Dudu entre pausas e notas. Saí de lá com a certeza que Dudu tem de sobra o que falta ao mundo. Saí também com a paisagem, a natureza, a criança, os animais, com a pureza do sertão. Foi uma manhã inesquecível, aprendi sobre as plantas de lá, o que os bichos comem e não comem. Foi uma aula sobre a vida e sobre um menino que tem uma intimidade com as animais que pouquíssimos veterinários que conheci têm. Dudu não sabe, mas a verdadeira aula quem deu foi ele.

Despedi-me dizendo:

– Dudu que privilégio você têm, toda manhã você tem isso!

Ele riu encabulado e falou:

“Só não deu para ver os preás, eles são muito ligeiros”.

“Tem nada não Dudu, fica para próxima.”

No tempo da indelicadeza, Dudu é uma riqueza.

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