sábado, 20 de abril de 2024

Travessia: No Rastro da Enchente de 31 de Março de 2024

Era 07 de abril de 2024, o dia nem tinha nascido em Lajes RN, e 5 aventureiros já tinham despertado, até os galos foram pegos de surpresa. Aconteceu que Nicinho da Academia havia chamado Cícero para percorrer um trecho do rio por onde passou a enchente do dia 31 de março, que culminou com a queda da ponte da BR 304 sobre do Rio Ponta de Serra (detalhe, a caminhada começaria desde nossas casas). De pronto aceitei e chamei Lucas Matheus (o Sargento), Lucas Lobo e o corredor Ildo. Bora, né?

Marcamos de nos encontramos próximo à Churrascaria Chimarrão, no Posto Odom, às 05:30h. Havia um desafio monumental no caminho, transpor a Serra do Feiticeiro, da Fazenda Boa Vista para a Fazenda Itapuã. Não seria um percurso desafiador para quem está sempre em atividade física. Mas a Serra estava úmida, com água descendo de vários riachos dela. Ainda da rua, observávamos nela, clareiras que pareciam estradas, resultado de deslizamentos monumentais no dia da chuva. Chegando em um desses pontos, vimos que a dimensão nem se compara ao que vimos da rua, cratera gigantesca com mais de 1 km. Depois de admirarmos o sinistro demos seguimento à travessia da serra, encontramos facheiros caídos, mata fechada (em alguns pontos andávamos de cócoras) Chegando no topo, outro obstáculo, encontrar a trilha certa que nos levasse à Itapuã. Com experiência de quem já havia feio a trilha em 2015, conseguimos encontrar a entrada certa (mais mata fechada, mais facheiros caídos), até uma jararaca nos recepcionou.

Ao descermos chegamos na casinha dos Belos (uma casa de taipa no pé da serra próximo ao olho d'água), antes das 09h. Depois de um lanche, iniciamos o percurso no rio vindo de Santa Rosa, que nos levou ao açude de Itapuã, um dos que estouraram, além dele: o do Bonfim e do Amarante também (não tenho certeza do açude da Fazenda Muquém), resultado de uma tromba d'água nas cabeceiras dos rios com quase 300 mm. Vimos uma quantidade de tilápias em todo o leito do rio, onde urubus e ouras aves nativas se fartavam. Era próximo das 12h quando chegamos nas casas onde moram membros da família do saudoso Manoel Cirino, onde abastecemos as garrafas e demos prosseguimento à aventura. Era comum atolarmos nos bancos de areia. olhando tanto as margens como o leito do rio, tivemos dimensão do tamanho da enchente: incontáveis algarobas tombadas, barreiras enormes, a estrada que dava acesso ao Amarante, Itapuã para Vereda do Meio intrafegável até por moto. Quando encontramos a estrada de Vereda do Meio, saímos do rio e fomo até à BR, onde lá, o irmão de Nicinho foi nos pagar de carro e nos levou ao local da ponte, faltava cerca de 2 km. No local da ponte, nos vimos abismados mais uma vez, a força da água não apenas derrubou a ponto, mas a tirou do seu lugar e a tombou ao lado, como se fosse algo de papel. Depois chegou alguns lajenses para olhar o sinistro, além deles, um caminhoneiro com destino a Recife, que passou direto da entrada de Ipanguassú e ia ter que voltar todo esse percurso para ter acesso à BR 406 e depois BR101. Minha atividade no estrava marcou 24 km, mas desliguei antes do fim do percurso, deve ter dado 26 km

Obs: será construída uma nova ponte de concreto no local, mas a previsão de conclusão será de 8 a 12 meses. Ao lado está sendo construído um desvio, mas as chuvas constantes na região tem feito o rio descer com água diariamente (desde o dia 31), o que tem dificultado a conclusão da obra.

Passando no Rio 2 Irmão, com cheia da sangria do Açude Juazeiro
Haviam riachos ainda descendo água da Serra do Feiiceiro
Acima, erosões na Serra do Feiticeiro, vistas da rua. Abaixo: estamos em uma delas
Acima: ao fundo, o que restou da parede do Açude de Itapuã. 
Abaixo, peguei uma tilápia com a mão
Leito do rio, entre Itapuã e Vereda do Meio, descendo para Ponta de Serra.
Acima, casa onde mora membros da família Cirino. 
Abaixo: leito do rio com a Serra do Feiticeiro ao fundo.
Local onde ficava a Ponte Sobre o Rio Ponta de Serra

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Personalidade Histórica de Lajes I - Francisco de Oliveira Cabral (Chico Cabral)

Quem acompanha este blog desde seu início, sabe que um tema que não abordo é o cotidiano político, seja em âmbito Municipal, Estadual ou Federal. Mas como historiador, sou procurado sempre para pesquisa sobre a História de nosso município. Ultimamente tenho escrito pouco por aqui e quando o faço, é para material como arquivo. Depois do sucesso da série Personalidade Lajense, inicio o Personalidade Histórica de Lajes, com o objetivo de pesquisar e arquivar a memória daqueles e daquelas que contribuíram de alguma forma no passado, para Lajes ser o que é hoje. Começo esta série com Francisco de Oliveira Cabral (Chico Cabral).

Foto: Galeria dos Prefeitos - Salão da Prefeitura de Lajes RN


 Francisco de Oliveira Cabral

Nascimento: 30/03/1916, em Assú RN

Falecimento: 12/12/1986, em Natal RN

Esposa: Iracilda Procópio Cabral

Filhos: Francisco de Oliveira Cabral Jr, Eduardo Antônio Procópio Cabral e Fernando José Procópio Cabral (in memória)

Pai: Antônio Cabral Sobrinho

Mãe: Francisca Margarida de Oliveira Barros (Francisca de Oliveira Cabral)

Apelido: Chico Cabral.

  Francisco de Oliveira Cabral, popularmente conhecido como Chico Cabral, foi o primeiro filho de Antônio Cabral Sobrinho e Francisca Margarida de Oliveira Barros, posteriormente: Francisca de Oliveira Cabral. Teve como padrinhos: José de Araújo Chaves e Luiza de Oliveira Chaves. Seus irmãos, nascidos em Assú: José, Maria, João Batista (falecido em seus primeiros meses de vida) e Luiza. Em Lajes, nasceram João (1923) e Nazira (1924), ambos faleceram em seus primeiros meses de vida, Sarah (1925), Alba (1927 ainda viva), Vicente (1928), Antônio (1931), Adalzira (1933, ainda viva), Terezinha (1935 ainda viva, é freira com a denominação de Irmã Ricarda), Auxiliadora (1937) e Socorro (1938).

Francisco de Oliveira Cabral, chegou em Lajes em 1922, juntamente com seus pais e seus irmãos nascidos em Assú, ele com seis anos de idade. Seu pai vira para Lajes, com a filial da Padaria Sant Cruz, à convite do senhor, Etelvino Caldas.

Estudou na sala de aula da Professora Mariana Gomes e no Grupo Escolar Pedro II. Seu primeiro emprego, foi como balconista na Farmácia Cruz Vermelha, do senhor Antônio Telmo Filho. Com a morte do patrão, Francisco comprou o empreendimento negociando com o pai do mesmo, o senhor Antônio Telmo.

Quando chegou em Lajes, sua família alugou uma casa na Rua 15 de Novembro (hoje Aristóteles Lima). Depois moraram na Praça Coronel Miguel Teixeira (Rua do Quadro) e na Rua Coronel Manoel Câmara. Juntando com o dinheiro que Francisco Cabral ganhara na Farmácia Cruz Vermelha, seu pai Antônio Cabral, comprou a casa de número 66, na rua 15 de novembro, hoje Rua Aristóteles Lima. Entre idas e vindas, lá moraram até no ano de 1954, quando se mudaram para Ceará Mirim. Antônio Cabral, já havia falecido, em 1938., sete dias antes do nascimento de Socorro.

O empreendedor

Não foi só a Farmácia Cruz Vermelha que Francisco Cabral empreendeu, também teve uma mercearia e uma loja de tecidos no Beco Estreito, ainda no tempo de solteiro. A loja atendia toda a região próxima a Lajes.

O político

 Ex Vereador de Lajes. Prefeito de Lajes em dois mandatos: de 21/01/1938 à 18/04/1945 (nomeado) e de 30/02/1953 à 31/03/1958 (eleito). Em sua eleição, concorrendo pela UDN (União Democrática Nacional), venceu o ex Deputado Estadual Ramiro Pereira, este sendo apoiado pelo Governador Silvio Pedroza e, Chico Cabral, apoiado por Aluízio Alves.

Obras e Feitos

Prefeito na época da construção do Hospital e Maternidade Aluízio Alves, do qual também foi Vice Diretor, a Diretora era Carmelita Cabral.

Fundador do Projeto Casulo (espécie de creche), atendendo 136 crianças

Presidente da União Caixeral de Lajes, até sua morte. Tinha como Diretor, o saudoso Paulo Otaviano (Paulo do Foto) e tinha como locutor, o ícone F. Cruz (Canelinha).

Presidente da Cooperativa Agropecuária Limitada (prédio existente até hoje, ao lado do Mercado Público de Lajes).

Patrono da Escola EEFOC: Escola Estadual Francisco de Oliveira Cabral

O Projeto Casulo, funcionou onde hoje é a Biblioteca Pública Maria José Lourenço, na Rua João Militão Martins; em parceria com a LBA (Legião Brasileira de Assistência), a famosa “Legião”. Servia, portanto, de escola e assistência às famílias carentes.

Influência Política e Curiosidades

Em 1976, Chico Cabral tinha como projeto político, eleger o médico Dr José de Oliveira Barreto, mas este veio a passar no concurso do INAMPS (hoje INSS), que optou seguir apenas a carreira profissional. Com isso, Chico Cabral e Ramiro Pereira unem-se no mesmo palanque e elegem Raimundo Quirino da Costa. Chico indicou Raimundo Quirino para Prefeito e, Ramiro indicou Francisco Amâncio Pereira (Pereira Primo) para Vice.

Em 1982, Aluízio Alves, que estava com os direitos políticos cassados pela Ditadura, volta ao cenário político. Aluízio lança-se candidato a Governador, tendo o apoio de Chico Cabral. Mesmo perdendo a campanha Estadual, em Lajes, Aluízio venceu José Agripino, com mais de 150 votos de maioria. Nesse mesmo pleito, em eleição vinculada, de Vereador à Governador, Aluízio Alves apoia a candidatura de Edivan contra Ramiro Pereira. Chico Cabral, volta então a estar em palanque adversário de Ramiro, pois Aluízio, além de ser seu líder político, também era seu compadre, padrinho de seu filho Fernando Cabral. Edivan venceu por 6 votos, tirando uma diferença de 60 votos pró Ramiro, na última urna.

Chico Cabral, candidatou-se a Deputado Estadual em duas oportunidades, pela ARENA: 1974 e 1978, fazendo dobradinha com o Deputado Federal Antônio Florêncio de Queiroz, mas não obteve êxito. Sua vocação estava mesmo na política local.

Ele ainda exerceu os cargos de: Tesoureiro Geral do Estado e Diretor da Municipalidade (cargo extinto).

No ano de seu falecimento, em 1986, ainda participou da campanha de Geraldo Melo, eleito Governador do Rio Grande do Norte.

Chico Cabral, era primo do ex Prefeito Manoel Januário Cabral, que governou de 30/01/1923 à 14/08/1923. o Nezim Cabral,  era Prefeito à época da construção do prédio da Prefeitura de Lajes. Isso evidencia uma forte vocação da família, na política local.

Nas palavras de Francisco Canindé Cruz (Canelinha): “Chico Cabral era um homem pacífico, humilde, que gostava muito de lidar com o povo. Era um articulador, macio, manso no diálogo, correto com seus amigos... Era um homem simples, homem do povo. Era um homem de princípios”

Para Eduardo Cabral, seu filho, Chico Cabral foi um homem que deixou exemplos: “de honestidade, de caráter... era amigo. O trabalho dele era direcionado para os mais simples, para os mais pobres. Ele tem aquele hospital como um órgão dele, um braço. É tanto, que ele se dedicou até à morte àquele hospital”.

Eduardo Cabral, foi seu sucessor na política, seu irmão mais novo, Fernando Cabral exercia a parte administrativa. Com o afastamento opcional de Fernando, dessa função, Eduardo acumulou as funções política e administrativa. Ele também foi Diretor do Hospital e Maternidade Aluízio Alves, fundado por seu pai.


Fontes da pesquisa

Entrevista realizada com Francisco Canindé da Cruz

Manuscritos de Adalzira de Oliveira Cabral

Entrevista realizada com Eduardo Antônio Procópio Cabral

https://cicerolajes.blogspot.com/2022/10/historia-galeria-de-ex-prefeitos-de.html

segunda-feira, 25 de março de 2024

Atletismo - A Corrida Vem Ganhando Adeptos no Interior do RN

Há um empo que os esportes individuais vêm ganhando mais adeptos, especialmente durante e logo após a Pandemia do Covid 19. Um desses esportes é o atletismo, especialmente os praticantes de "corrida de rua". No interior, é possível observar no início da manhã e fim de tarde, um número maior de pessoas correndo pequenas distâncias, que variam de 1 km a 5 km. Quem se identifica como atleta, mesmo amador, geralmente percorre entre 5 km e 10 km, a diferença é que eles não correm, eles treinam. Prova desse crescimento, é que vem se popularizando as provas de corridas de rua, com chip e cronômetro, inclusive nas cidades do interior, onde não haviam tradição nesse esporte. Normalmente essas provas são de 5 e  10 km, ou 6 e 12 km. Há também as provas até 15 km.

Recentemente,  corredores e atletas de Lajes estiveram em  corridas do Estado, João Augusto e Tárcio Fernandes, acompanhados do amigo Cléber, estiveram participando da VI Corrida Monsenhor Pinto, em Angicos. Nesse sábado, 23/03/2024, Naldinho, Simone, Franciwagner e sua esposa, estiveram participando da Corrida da Água, em Natal, organizada pela CAERN. Ano passado, Aluízio, conhecido como Azulão, que ambém é apaixonado pelas corridas, correu a badalada São Silvestre.

Também sou adepto das corridas, mas por enquanto, apenas para por o cárdio em dias. Lembro que quando iniciei as primeiras corridinhas, no ano de 2004, perguntavam se eu estava ficando doido, pois me viam correndo às 05:30 horas da manhã (coisas de interior rsrsrs). Hoje não mais, agora me chamam de doido pelas aventuras de bicicleta encima das serras kkkkk.  

Há também os praticantes das corridas de aventura, orientação e desafio de serras. Em Lajes, os atletas Ildo Assis e Lindemberg Fernandes, são praticantes dessas modalidades.

Corridas famosas no RN: Meia Maratona do Sol, Corrida Soldados do Fogo (Bombeiros), Meia Maratona PRF 191, Corrida do Choqueano (BP Choque), Corrida da Lua....

Confira dicas para quem quer iniciar nas corridas:                                        https://blog.circulosaude.com.br/2022/08/26/comecar-a-correr-cuidados/

sábado, 23 de março de 2024

Seletiva do Municipal de Campo 2024 - Assentamento Boa Vista 3 x 1 Feiticeiro FC

Acima: Assentamento Boa Vista

A Secretaria de Juventude Esporte e Lazer (SEMJEL), realizou na tarde deste sábado, 23/03/2024, uma seletiva para o Municipal de Campo 2024. Disputaram a vaga: Assentamento Boa Vista e Feiticeiro FC, o Derby das Boas Vistas. E o time do assentamento se saiu melhor.

Comissão de Arbitragem: juiz Rony, auxiliares Bolha e José.

O Jogo - O feiticeiro FC, do meu amigo Nilson, começou atacando, tendo uma tentativa com Paulo Márcio e uma tentativa de cabeceio do camisa 9. Depois disso, o time do Assentamento Boa Vista se achou no jogo e chutava de onde dava, com várias defesas do goleiro do Feiticeiro FC. O Assentamento chegou a perder um pênalti, mas abriu o placar em seguida. Aí o jogo ficou fácil, o ataque do Feiticeiro FC era ineficiente, falava ligação para o passe final e conclusão das jogadas, sua defesa vez ou outra batia cabeça. Não deu outra, o Assentamento Boa Vista chegou ao segundo gol ainda no primeiro tempo, levando a vantagem para o intervalo. Na volta, o Assentamento Boa Vista fez mais um. Depois de 3 a 0, o técnico Russo mexeu no Feiticeiro e o time deu uma revigorada, chegou a fazer 1 gol de pênalti, teve outro que o juizão não deu. Ambos os times ainda criaram várias chances de ataque, mas não converteram, sendo as melhores chances, do time do Assentamento Boa Vista, que agora se junta aos demais times que disputarão o Campeonato Municipal de Campo.

Placar Final: Assentamento Boa Vista 3 x 1 Feiticeiro FC

Acima: Feiticeiro FC
Acima: Trio de Arbitragem, os capitães e o Secretário Sidicley.
Abaixo: Equipe SEMJEL

Personalidade Lajense XI: Raimundo /Dinorá


Nome: Francisco Raimundo de Andrade
Identificação: Dinorá ou Raimundo Dinorá
Nascido em Lajes em: 09/03/1956
Pai: João Henrique de Andrade Filho
Mãe: Maria José de Andrade
Irmãos: Denice, Dinorá, Selma, Carlos, Gilberto, Neto, Damião

Cícero - Você é aposentado como Funcionário Público, né isso?
Raimundo - Com certeza. Com 38 anos de trabalho, foi que eu me aposentei.

Cícero - E você sempre trabalhou como Funcionário Público?
Raimundo -Trabalhei vendendo picolé, saco de papel, vidro, em Natal, vendia bolinho na rua.... Eu nunca gostei de ficar parado. Eita amanhã (memória) é São João! Eu corria pros lixos, pegar ferro velho pra vender, pra comprar bomba, comprar traque, pra soltar, na juventude, tudo novinho, o que dava na cara a gente fazia.

Cícero - Onde tu nasceu?
Raimundo - Eu nasci no Conjunto 3 de Outubro, no ano de 1956. Amanhã (09 de março), estarei completando 68 anos.
Cícero - Me admirei. O achei com aparência mais jovem. Percebendo minha admiração, ele completou:
muita  graça,  cheia de  saúde, muita  paz que eu tenho na minha vida.

Cícero -Você gosta  de se identificar, como ele ou, como ela?
Raimundo - Não, isso pra mim nem influi. Depende de quem vier conversar. tem problema não. tanto faz ser ela, ou ser ele, ou ser traveco, ou ser homossexual, ou ser veado, pra mim isso não importa. O  importante é que eu vivo.

Cícero - Você é de uma época (se hoje ainda há preconceito, já conseguimos derrubar muita coisa), mas no seu tempo, como foi para você se assumir?
Raimundo - Ah, tinha muito receio, realmente. E certamente tinha muito respeito, eu era uma pessoa séria, não dou cabimento.

Cícero -Você brinca com quem brinca com você...
Raimundo - Exatamente, tem problema nenhum, eu brinco com todo mundo, conheço todo mundo em Lajes, vou pra Natal, e até aqui, eu nunca tive decepção. Ando muito só, tenho meus amigos íntimos, não gosto de turma. Meu Carnaval é o Zé Pereira, não perco de jeito nenhum.

Cícero - Teve uns dois anos que tu saiu (fantasiado) de freira. Tu lembras de outras fantasias?
Raimundo - De Carmen Miranda, marinheiro, camareira, e várias. Todo ano saio à  caráter.

Cícero - Você se considera uma pessoa feliz?
Raimundo - Com certeza, não tenha nem dúvida disso.  

Cícero - Tem alguma coisa para realizar que ainda não realizou?
Raimundo - Não, pra mim... tá tudo em paz, vivo hoje, não sou doente.... Pra mim, o ponto principal da vida é ser feliz e não ser doente.

Cícero - Você é de uma época, quando surgiu o HIV, culpavam logo os "homossexuais" (palavra comum antes das identificações propostas pelo movimento LBTQI AP+).
Raimundo - Ave Maria! Exatamente, não tenha nem dúvida disso.

Cícero - Nesse sentido você sofreu preconceito?
Raimundo - É mas, eu nunca tive, graças ao meu bom Deus, soube me preparar, me cuidar. Tanto comigo como com meu parceiro. Porque quando eu tinha um parceiro, eu demorava anos. Então só se fosse ele, mas sempre eu me cuidava.

Cícero - Tem algumas passagens engraçadas de sua vida que você lembre e gostaria de contar?
Raimundo - Eu tive tantas. Uma vez, eu era muito jovem, aí nunca gostei de tá parado (sem trabalho), sempre gostei de tá com meus trocadinhos no bolso. Aí fui apanhar algodão, na fazenda de Raimundo Quirino, lá em Pedra Vermelha. Ia passando uma passeata de Aluízio Alves, pra Pedra Preta. Aí (risos) cada um que quisesse pular a cerca para ir pra perto dos carros, no meio dos carrapichos, era aquele auê, sabe? 

Cícero - Com quantos anos você descobriu que gostava de pessoas do mesmo sexo?
Raimundo - Ah meu amor, 13 anos. Isso foi em Natal, a primeira pessoa que eu conheci.

Cícero - Como foi que você revelou pra sua família?
Raimundo - Não, eles foram vendo o meu modo de ser, meu modo de agir em casa. As vezes eu me pintava, brincava de circo, de baiana... e até chegou meu pai reclamar, querer puxar minha orelha. E foi passando... não sou daquelas pessoas debochadas. Só naquelas datas comemorativas, a pessoa gosta de se explorar para o povo ver quem é realmente aquela pessoa que está vestida por dentro da roupa. O povo já sabe quem é. No Carnaval, são cinco pessoas, meu bloco: é eu, é Jessé, é João irmão de Cláudio, é Gugú, tudo igual. Esse ano, nós apresentamos no carnaval: As Camareiras.

Cícero - Como você ver a luta pelos direitos, de ser aceito...?
Raimundo - Pra gente ainda é muito difícil, ainda tem um encalço. O pessoal ainda malvada muito com a classe. Mas hoje é diferente, o pessoal não olha mais com a cara torcida, recebe bem.

Cícero - Então a classe é unida?
Raimundo - É, tem uns que realmente querem pisar no outro. Se tem um emprego melhor já fica um pouco diferente. Mas, isso pra mim, nem influi nem contribui, porque todo mundo é igual.

Cícero - Mas, isso independe? Se ele fosse hétero faria a mesma coisa?
Raimundo - Seria do mesmo jeito, mas isso não importa sabe? A vida é de cada um. Cada um que viva do seu jeito que dar tudo certo. E eu vou vivendo, servindo a população, eu gosto é de ajudar. Por isso que em Lajes, se não conhecer Raimundo Dinorá, não conhece ninguém. Aonde eu morei em Natal é do mesmo jeito.

Cícero - Morasse onde em Natal? 
Raimundo - Morei lá no Alecrim, na Ferreira Nobre. Passei lá uns 15 anos. Saía de casa, de 8 horas da manhã e chegava de 10 da noite. Todo mundo com cuidado, com medo, e eu nas praias. Eu era assim. Eu era conhecido a Rainha da Praia viu? Com 13 anos, era de frente ao hotel, lá em Areias Pretas. O grande Hotel.

Curiosidade - Raimundo não tem Whatzapp e nenhuma rede social. Ele disse que não tem porque ser um meio cheio de falsidades. Prefere o contato do mundo real, presencial. 
Raimundo - "As vezes uma pessoa faz um elogio no celular, e com a mão, faz um sinal obsceno, sem a pessoa ver". 

Expressões
Dar na cara: (nesse sentido) mesmo que sentir vontade, veneta...
Classe: (nesse sentido) pessoas que caracterizam-se nas identificações especificadas pelo movimento LGBTQIAP+ 

Entrevista concedida em 08/03/2024

quinta-feira, 21 de março de 2024

De Volta à Serra do Feiticeiro - Domingo - 17/03/2024

Fazia um tempinho desde minha última trilha na Serra do Feiticeiro. Nesse domingo, 17/03/2024, um grupo de amigos vindos da Paraíba, esteve trilhando à convite de sua conterrânea Alane Priscila, que mora em terras lajenses e é casada com nosso amigo Nicinho da Madeireira. Grupo de espírito muito bom, energia positiva e descontração.

A trilha  passou pela Umburana da Pedras; Capela da Divina Santa Cruz, em homenagem ao garoo José; a Pedra do Anjo;   e Mirante dos Mármores. Esteve me auxiliando, o condutor local Lucas Matheus.

À três km da Serra, na Comunidade Boa Vista, há a opção de banho de açude e restaurantes.  

Restaurante Serra do Feiticeiro (84) 998669403
Restaurante da Julieta (84) 999035601

Condutor Local Lucas (84) 999602059
Condutor Local Vagner (84) 998337065
Condutor Local Cícero (84) 996374338

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Dia de Vacinação de Gado no Sertão

Dia de vacinação do gado, no sertão, é um acontecimento. Reúne-se a vaqueirada dividida em pequenos grupos percorrendo a mata da propriedade, cada uma em um setor. Assim eles cobrem mais terra possível e com mais chance de levar ao curral, o maior número de animais. Lá é onde ocorre a vacinação, mas também ocorre no mato quando o gado é brabo e não sai da mata.

Normalmente, nesse dia, têm-se um clima de descontração, já que os vaqueiros costumam fazer isso por prazer ao ofício ou amizade ao dono dos animais. Nesses dias também há mostra de habilidade, velocidade, força e coragem, de vaqueiros e seus cavalos. Também se torna um dia de tomar uma pinga m confraternização ou para "dar mais fogo" na labuta. Em algumas fazendas, após a vacinação, os donos ofertam um almoço  e bebedeira para a turma, familiares e amigos presentes. 

Fiz esses registros de uma vacinação, em Pelo Sinal II, Fernando Pedroza, região do Sertão Central Cabugi RN, em maio de 2023.